Fiquei completamente sem reação. Estagnado, preso em meu tormento. O vampiro vestia um roupão-de-banho azul-escuro, com detalhes formando filetes folhados a ouro. Estava totalmente à vontade e disse aquelas palavras com naturalidade, sem surpresa alguma com minha presença. Pelo contrário, parecia que já estava à minha espera, e isto me aterrorizou ainda mais. Novamente, eu estava na casa do primeiro vampiro do mundo e, novamente, sem defesa. Mais uma vez à mercê de qualquer vontade sua. O medo me tomou por inteiro, quando lembrei de nosso acordo, que certamente ele jamais esquecera. E imaginei o quanto me odiava.A peça que segurava em minhas mãos era magnífica, mas perdera toda sua importância ante aquela presença. Delicadamente soltei-a, como se fosse um cálice qualquer. Desprezei o artefato de maior valor histórico da humanidade para ater-me ao vampiro, que certamente não queria conversar sobre aquilo. Depois de uma última olhada para o objeto, fiquei de frente para o anfitrião e, com palavras fúteis, o máximo que meu terror permitia pensar em dizer, comecei. Sem saber ao certo o que dizer e tentando ferrenhamente não lhe passar o pavor que estava sentindo:
_Faz muitos anos!
_Mais de meio milênio! _Continuou, num tom agora intimidante. _Muito tempo, até para alguém como nós. _Concluiu e logo virou o rosto em direção a um aposento que ficava atrás de onde surgira. _Deixe-nos! _Falou, dirigindo-se ao jovem vampiro, que saiu das sombras ostentando um sorriso cínico, retirando-se do apartamento pela mesma porta que entrei.
_Jamais imaginei encontrá-lo aqui! _Falei, ainda abalado.
_Não me encontraria, caso eu não permitisse! Se eu não desejasse. Mas a recíproca não é verdadeira. Eu sempre soube de seus passos.
Pensei no quão verdadeira deveria ser aquela afirmação. E em minha total e irremediável insignificância. Malberon era o primeiro vampiro a caminhar pela Terra, o mais poderoso e sábio. Sua influência era tamanha que havia modificado o próprio mundo à sua vontade. O que eu poderia fazer? O que eu era perto dele? Inegavelmente, aquele encontro serviria para me mostrar que eu não passava de um peão, mesmo não tendo conhecimento real de qual jogo participava. Até o jogo em si deveria ser muito maior do que eu. Então compreendi, naquele instante, que de alguma forma minha presença fora solicitada. E, se assim foi, era porque eu não mais tinha valor.
_Devo concluir, então, que meu momento chegou? _Falei, convicto de minha morte definitiva.
CONTINUA...
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