_Destruí-lo? _Perguntou. _Deveria fazê-lo por não ter matado Ismael como ordenei? Por não ter cumprido com o trato? Eu poderia fazê-lo facilmente, mas creio que já o fez, quando abdicou da chance que lhe proporcionei de se vingar do vampiro que o desgraçou! Quando rasgou e soprou ao vento a única razão de sua miserável existência. _Sorriu e, após uma breve pausa, continuou. _Isso o torna especial, isso o torna maravilhoso e intocável. A dor que carrega é pior que sua morte, e morrer seria um alívio. Sua complexidade me encanta, pois a vejo somente em poucos. Você deveria ser um de meus “filhos”, mas isso é impossível._Não entendo! _Raciocinei, embaraçado. _Suas palavras dizem que me contempla, mesmo sendo eu um de seus piores inimigos! Mesmo eu tendo, em minha renúncia de matar o Cavaleiro, impedido você de evitar a ascensão do cristianismo.
_Em que ponto me impediu? E que valia teve seu ato? Ismael tornou-se rei e levou o cristianismo para o coração de todos os homens, mas jamais se perguntou o “que” do cristianismo eles queriam. O “que” entenderiam. Quando cheguei, havia um berço de desejos distorcidos, eu apenas o arrumei. Se Ismael tivesse morrido, outra religião teria ascendido, e eu teria chegado da mesma forma. O mundo seria invariavelmente o mesmo.
Você não impediu nada, apenas adiou o inevitável.
_Mas dificultei seus planos! A morte de Ismael daria fim ao cristianismo e destruiria o que os vampiros mais temem.
_E onde está o cristianismo que temem? O que restou do original, do verdadeiro, do puro? Daquele que você conheceu? Onde está a palavra que conduz a Deus? Onde está a fé correta, que originou o Sagrado Pacto? _Falou, vindo a mim com passos tão leves que seriam inaudíveis para qualquer mortal. _O cristianismo é simples demais, e até hoje eles o complicam. Apenas uma palavra o define, apenas uma palavra é suficiente para derrubar igrejas, rasgar as páginas das Bíblias e acabar com as diferenças de credos, com as discórdias e as guerras do mundo. Mas eles não a encontraram e jamais a encontrarão justamente por sua simplicidade. Ficarão gerações infindáveis interpretando e discutindo os escritos. E em seus sutis e diferentes entendimentos, em pontos minúsculos e desprezíveis, encontrarão motivos para novas formas de adorar. Por isso, hoje, eu estou aqui, reinando sobre eles, porque há séculos buscam leituras, paredes e imagens, modos de vida rígidos e restritos, culpas e castigos onde originalmente nunca houve sequer a intenção para que existissem. E uma simples palavra pode me derrubar.
_Então, não foi o responsável por esta distorção?
_Não! Não mudei o pensamento dos homens nem o mundo à sua volta. Apenas tive a coragem para mostrar-lhes seus próprios sonhos. Não os empurrei, apenas os guiei. Mostrei a maçaneta, pois já estavam à frente dos portões a que aspiravam. Nunca desejaram o cristianismo verdadeiro, então, modelei-o para que se adaptasse aos seus anseios. Hoje, fazem-no a todo o momento, buscando uma perfeição que somente os torna mais imperfeitos. Dizimei os outros credos, dizimei as outras espécies, e eles bateram palmas. Acabei com a magia, ordenei o que deveriam ler. Denominei cidades, países e continentes. Reescrevi o passado, criei culturas, e não sentiram falta. Não nego que meu trabalho não tenha sido árduo. Ainda hoje, persigo paleontólogos que se deparam com fósseis de algum dragão e os silencio. Contos fantasiosos sobre elfos e anões são cada vez mais freqüentes e logo existirão como formas ricamente detalhadas de entretenimento. Cientistas descobrem cedo demais algo que não deveriam, assim como permito que divulguem conhecimentos que, há muito, já deveriam ter sido divulgados. Todos sabem o que é um vampiro, embora ninguém acredite.
Eu construí o mundo de hoje, mas fiz isso sobre seus próprios alicerces.
CONTINUA....
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